Em 15 de julho de 2019, escrevi no meu devocional sobre mordomia cristã:
“Todo tempo é o tempo de Deus. Deus possui a mim e ao meu tempo. Ele me deu uma medida de tempo da qual sou mordoma e terei que prestar contas.”
A verdade central continua firme: tudo pertence a Deus. Nosso tempo, nosso corpo, nossos recursos, nossas capacidades e as responsabilidades que recebemos realmente vieram das mãos dele.
Hoje, porém, eu escreveria assim:
Todo o meu tempo pertence a Deus e foi confiado a mim para que eu o administre com fidelidade.
Não sou dona absoluta do que recebi. Sou mordoma. E reconhecer isso muda a maneira como uso o tempo, cuido do corpo, lido com os bens, sirvo às pessoas e respondo a Deus.
Tudo pertence a Deus
“Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam.”
Salmo 24:1 — ARC
Mordomia cristã é reconhecer que Deus é o Senhor e que nós administramos, por um tempo, aquilo que veio das mãos dele.
Isso inclui dinheiro, casa, trabalho, conhecimento, dons, oportunidades, influência e ministérios. Inclui também o tempo, a mente e o nosso corpo.
Mas existe uma distinção importante pra gente fazer aqui: pessoas não são bens.
Meu marido e meus filhos pertencem a Deus, mas não são propriedades que recebi para controlar. Diante deles, Deus me confiou responsabilidades: amar, honrar, cuidar, ensinar e servir.
Eu não administro pessoas. Sou responsável pela maneira como exerço minha função nos relacionamentos.
O mesmo vale para a obra de Deus. Um ministério não pertence ao líder. Um grupo não é propriedade de quem o iniciou. A Igreja pertence a Jesus. Recebemos dons para servir, não para construir territórios pessoais. Temos que ter consciência disso.
Prestaremos contas, mas não compramos a graça
Em Lucas 16, Jesus fala de um administrador acusado de desperdiçar os bens de seu senhor. Então ele ouve:
“Dá contas da tua mordomia.”
Lucas 16:2 — ARC
Essa palavra de Jesus é muito séria. Nossa vida não é neutra. Um dia todos nós prestaremos contas a Deus daquilo que fizemos com o que ele colocou em nossas mãos.
Mas prestação de contas não significa salvação por nosso desempenho.
Somos salvas pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo. As nossas boas obras não compram o amor de Deus; elas são fruto da nova vida que recebemos nele (Efésios 2:8–10).
O evangelho nos livra de dois erros: da irresponsabilidade de viver como se nossas escolhas não importassem e da condenação de imaginar que qualquer falha anula a graça.
Fidelidade não é perfeccionismo. É lealdade ao Senhor. É reconhecer quando algo saiu do lugar, aceitar a correção e obedecer.
A mordomia cristã também alcança a mente e as mãos
Quando pensamos em mordomia cristã, é comum lembrarmos primeiro do tempo, do dinheiro e dos bens. Mas ela não alcança apenas o que está ao nosso redor. Também envolve a maneira como cuidamos da mente e usamos as mãos para responder ao que Deus nos confiou.
Naquele devocional, eu também escrevi:
“As mãos e a mente devem trabalhar juntas. Senão, uma trabalha e a outra fica parada.”
Eu havia lido Filipenses 4:8 e Romanos 8:5.
Filipenses 4:8 nos orienta a ocupar a mente com aquilo que é verdadeiro, honesto, justo, puro e digno de louvor. Romanos 8:5 mostra a diferença entre uma vida orientada pela carne e uma vida orientada pelo Espírito.
Esses textos não tratam de pensamento positivo. Eles tratam da direção da mente e da vida.
Tiago 1:22 completa essa aplicação de forma muito prática: não basta ouvir a Palavra; precisamos praticá-la.
Cuidar da nossa mente também é mordomia cristã. A direção que damos aos nossos pensamentos diante da Palavra de Deus influencia nossas escolhas, nossa disposição e a maneira como tratamos o que Deus colocou em nossas mãos.
Por isso, uma mente voltada para Deus precisa alcançar nossas decisões e ações. Podemos perceber que chegou a hora de encerrar um ciclo, rever uma despesa, cuidar da saúde, pedir perdão ou cumprir uma responsabilidade. Mas, se não houver resposta, a compreensão fica parada.
Também podemos manter as mãos ocupadas enquanto a mente está dispersa. Fazemos muito, começamos projetos, resolvemos tarefas e terminamos o dia cansadas. Ainda assim, talvez não tenhamos cuidado do que realmente importava.
Nem toda ocupação é fidelidade.
Mente e mãos caminham juntas quando a verdade compreendida diante de Deus se transforma em obediência prática. Essa também é uma forma de administrar com fidelidade o que recebemos.
O corpo também faz parte da nossa mordomia
A mordomia não termina naquilo que pensamos e fazemos. Ela também alcança o corpo por meio do qual vivemos, servimos e cumprimos nossas responsabilidades.
“[…] não sois de vós mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no vosso corpo […].”
1 Coríntios 6:19–20 — ARC
Nesse texto, Paulo trata diretamente da santidade sexual. O corpo do cristão não pode ser entregue ao pecado porque pertence ao Senhor e é templo do Espírito Santo.
Por pertencer ao Senhor, o nosso corpo também deve ser tratado com responsabilidade. Não pra tentar impedir todo cansaço, doença ou envelhecimento. Nem pra transformar saúde e aparência em ídolos.
Cuidar do nosso corpo com responsabilidade também é mordomia: respeitar limites reais, buscar ajuda quando necessário, descansar e não ultrapassar continuamente esses limites em nome da produtividade.
Nosso corpo não é uma máquina a serviço dos nossos planos e projetos. Ele faz parte da vida que recebemos para viver e servir diante de Deus.
Dependência do Espírito Santo não é passividade
E eu encerrei aquele devocional com esta afirmação:
“Nenhum mordomo poderá desempenhar seu sublime papel sem total dependência de Deus, sem o poder do Espírito Santo.”
Continuo crendo nisso.
Não vivemos com fidelidade apenas pela força de vontade. Precisamos do Espírito Santo para renovar nossa mente, convencer-nos do pecado, produzir domínio próprio, conceder sabedoria e nos fortalecer para obedecer.
Mas depender do Espírito Santo não é abandonar a responsabilidade que ele mesmo nos chama a assumir.
O Espírito Santo nos dirige e nos capacita. A nós cabe responder: conversar, corrigir, terminar, devolver, começar ou esperar, conforme a direção da Palavra e a responsabilidade que está diante de nós.
Dependência verdadeira não produz passividade. Produz obediência.
O que está em nossas mãos hoje?
Talvez você se pergunte: “Estou conseguindo administrar tudo perfeitamente?”
Mas tente mudar a pergunta:
Estou sendo fiel ao que realmente está sob minha responsabilidade nesta estação?
Nem toda possibilidade é uma responsabilidade. Às vezes, assumimos cargas por medo, comparação, culpa ou necessidade de aprovação. E depois tentamos sustentar tudo como se encerrar uma frente fosse infidelidade.
Não é.
Mordomia cristã também exige discernimento para encerrar o que cumpriu seu propósito nas nossas vidas, devolver o que não nos pertence mais e parar de alimentar frentes que já não devem nesse tempo ocupar nossas mãos.
Por isso, vale examinar:
- O que está realmente sob minha responsabilidade hoje?
- O que eu tenho cuidado com fidelidade?
- O que estou negligenciando de maneira consciente?
- Qual correção simples eu já sei que preciso fazer?
Não precisamos responder com promessas grandiosas. Precisamos responder com a verdade do nosso coração.
Talvez o próximo passo seja uma conversa, uma despesa revista, um pedido de perdão, um descanso necessário, uma tarefa concluída ou um ciclo encerrado.
Escolha uma única área da sua vida hoje dê o próximo passo.
Servas redimidas, não donas ansiosas
Mordomia cristã não é tentar controlar tudo nem viver assustada diante de Deus.
Jesus foi perfeitamente fiel ao Pai. Por sua morte e ressurreição, fomos reconciliadas com Deus. Pelo Espírito Santo, somos capacitadas a viver em obediência.
Não somos donas autônomas. Também não somos funcionárias tentando conquistar um lugar na casa.
Somos servas redimidas por Cristo, responsáveis pelo que recebemos e dependentes do Espírito Santo para viver com fidelidade.
O tempo passa. Isso não é uma ameaça, mas um chamado à sobriedade.
Hoje ainda podemos corrigir a direção e cuidar bem do que Deus colocou em nossas mãos.
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A Palavra não decora a vida. A Palavra governa a vida.
Priscila Guedes
Cristo no centro, Palavra de Deus como governo.
